O museu que mora ao lado

Pedro Meira Monteiro’s arti­cle in Folha de S.Paulo is a brief reflec­tion on the role muse­ums play in our daily lives, based on the Museo del Barrio’s exhi­bi­tion “Nueva York (1613–1945)”. It was pub­lished on Jan 4, 2011 (Folha de S.Paulo, Ilustrada, p.E4).

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Na Quinta Avenida, a pou­cas quadras do Guggen­heim, uma sur­presa aguarda quem vá além do cir­cuito dos grandes museus de Nova York: o “Museo del Barrio”.

Cri­ado no final dos anos 60, ele nasceu da luta pelos dire­itos civis, quando afro-americanos e lati­nos exi­giam que sua “her­ança cul­tural” fosse recon­hecida nas esco­las. Para dizê-lo sem meias palavras: a briga era por “des­bran­quear” o currículo.

O “Museo” é hoje uma insti­tu­ição com um impor­tante acervo per­ma­nente e um longo histórico de exposições e atividades.

O tur­ista brasileiro que passear pelos lim­ites do Harlem, onde fica o museu, pode ser assaltado por uma per­gunta: por que São Paulo não tem algo semel­hante, um Museu do Nordeste, por exemplo?

Talvez a resposta esteja na ausên­cia de um movi­mento pelos dire­itos civis entre nós. Mas deix­e­mos as rev­oluções para lá, e volte­mos a Nova York.

A exposição que marca a reaber­tura do museu, recém-reformado, foi co-patrocinada pela pres­ti­giosa New-York His­tor­i­cal Soci­ety, e se chama “Nueva York (1613–1945)”. Através de doc­u­men­tos, pin­tura, música e insta­lações, o vis­i­tante remem­ora a pre­sença “ibérica” ou “latina” na cidade, dos judeus sefardi­tas no século XVII à var­iedade cul­tural do fim da Segunda Guerra, pas­sando pelas fig­uras tute­lares dos grandes int­elec­tu­ais do século XIX, como José Martí.

Só por isto, já vale a visita. Mas a exposição inad­ver­tida­mente expõe um prob­lema: os lim­ites da instituição.

É que por trás da história da pro­dução açu­careira no Caribe, ou da efer­vescên­cia política do entre-guerras (ambas entre­laçadas à história de Nova York), há con­fli­tos tremen­dos que nem sem­pre apare­cem na exposição, que con­vida à har­mo­nia, mais que ao ruído.

É estranho ver que o choque e o pre­con­ceito, sem os quais o museu jamais teria surgido nos anos 60, foram aten­u­a­dos, envoltos num tom edi­f­i­cante que des­en­cadeia questões: há lugar para o con­flito no dis­curso insti­tu­cional? Como retratar os “de baixo” sem cair na can­tilena da inclusão? O museu não é sem­pre uma invenção da elite?

Talvez por causa dos lim­ites da insti­tu­ição, o novo logo do museu (“El Museo”) tenha sido alivi­ado da palavra “bar­rio”, que iden­ti­fica a porção latina, espe­cial­mente por­tor­riquenha, desse enclave sim­bólico em plena Man­hat­tan. Tudo um pouco clean no novo “Museo”…

Mas não sejamos ranz­in­zas e lem­bre­mos do que são capazes os museus, sem­pre que se decida transformá-los em expressão daquilo que, na ordem do dia, se varre para baixo do tapete.

E que São Paulo tenha, um belo dia, o seu Museu do Nordeste.

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